“Os passageiros deste trem não poderão desembarcar na estação Sé.  Quem quiser desembarcar precisará ir até a estação São Bento e então voltar para a Sé”. Deste jeito agradável descobri que não deveria esperar menos que o purgatório para embarcar na linha vermelha. Na plataforma do sentido Corinthians-Itaquera, milhares de pessoas. Cada trem vazio que chegara era comemorado aos gritos. Próximo das portas, à frente de um mar de pessoas, alguns se equilibravam sobre as baias de organização do embarque.

Sem nenhuma esperança de sair dali cedo, comprei duas barras de chocolate no último estande que sobrou na plataforma e subi a escada rolante para o nível superior, dos bloqueios. A escada rolante mais parecia aquelas cenas que sempre passam na televisão sobre Serra Pelada, ou uma esteira de grãos trabalhando lotada.

Lá em cima, tudo tomado de gente, esperando, e mais centenas ou milhares sem poder entrar. As catracas estavam bloqueadas. Pessoas com celulares se amontoavam para fotografar a multidão lá embaixo esperando o trem. A “amostragem” de pessoas era tão grande que encontrei dois conhecidos por lá. Decidi tentar o embarque e, para minha surpresa, não levei 10 minutos para entrar num vagão. Demorou muito, porém para o trem correr seu percurso. Ouvi relatos de pessoas que passaram uma hora e meia no trem, para ir da Barra Funda ao Tatuapé!

“Não vai subir ninguém”

Hoje o Metrô foi um laboratório interessante para vermos comportamentos em multidão. Uma placa do “embarque melhor” sendo destruída na Sé, vagões de trem com pessoas desconhecidas conversando. Passageiros “de dentro” impedindo a entrada dos “de fora”, em diversas portas do trem. Foi um dia atípico mesmo no comportamento das pessoas, eu incluso.

O problema

Chove em São Paulo todos os dias desde o início do verão, não bastasse o inverno também muito chuvoso em 2009. Solo encharcado, represas cheias no estado. Algum tipo de problema seria esperado numa situação dessas, mas a cidade parece estar entrando em colapso. Uma estação de metrô foi inundada hoje. Linhas da CPTM, como de costume, foram invadidas pela água.

São Paulo sofre agora as agressões feitas ao meio ambiente. E estas respostas são sentidas ainda mais em áreas de infraestrutura precária. Seja no esquecido Jardim Pantanal, que somente hoje entrou em estado de calamidade pública, seja na malha metroviária minúscula e radial, ainda dependente de uma estação no marco zero para distribuir uma demanda de milhões, obrigados a grandes deslocamentos para trabalhar.

Ainda que o Metrô, uma das saídas infraestruturais para o caos urbano, seja obra cara e de longo prazo, temos um mesmo partido no governo estadual há mais de 15 anos. O início das obras da linha Amarela, vital para a cidade, ocorreu apenas em 2004, quase uma década após a posse de Mario Covas, eleito em 1994.

Links relacionados:

30 pontos de alagamento e pânico no metrô (UOL)

Aricanduva transbora e outros pontos de alagamento(G1)

Pude conhecer a estação Sacomã nesta sexta-feira. O maquinista falava, a cada estação, que estávamos convidados para conhecer o novo trecho, funcionando em período de testes por enquanto.

Além do cheiro típico de obra recém-acabada, a nova estação não surpreende pela arquitetura propriamente, como o fez a Alto do Ipiranga. Bastante próxima ao nível da rua, seus atrativos ficam por conta das portas nas plataformas, que não permitem acesso à via, abrindo apenas quando as portas do trem são abertas. Os bloqueios também são inéditos no metrô paulistano, com portas de vidro ou acrílico que se abrem ao meio no lugar das tradicionais catracas de três hastes.

Uma equipe da Globo estava gravando entrevistas com os passageiros da nova estação essa manhã, focando justamente nos novos equipamentos do local. Acredito que nos próximos dias haverá uma inauguração com a presença dos nossos governantes, pois há aparelhagem de iluminação no local.

O trecho depois da Ana Rosa continua bastante vazio em relação ao resto da linha verde, sob a Paulista, e principalmente em relação às linhas vermelha e azul. A situação deverá mudar com a inauguração da estação Tamanduateí, interligada à linha da CPTM vinda da região do ABC, e também da estação Vila Prudente, em uma área bastante povoada da cidade. A impressão que fica das estações entre Ana Rosa e Sacomã é a de que existem apenas para que a linha chegue em uma região mais necessitada de transporte, no caso a Zona Leste.

Mais imagens da manifestação em nosso Flickr, no link ao lado direito da página principal.

Manifestantes carregam faixa pelo centro de São Paulo

As demais fotos podem ser vistas em nosso flickr: http://www.flickr.com/photos/sponibus/

Manifestanes carregam símbolo de protesto

Bandeira do Passe livre

Uma matéria muito boa foi publicada no Estadão de ontem:  Desafio na cidade que se espalha. Ela coloca em questão a organização espacial da cidade de São Paulo como um dos fatores para os problemas de circulação da cidade, apontando dados interessantes como a relação moradores/vagas de trabalho em lugares como o centro da cidade e Cidade Tiradentes, no extremo Leste da capital. Na região da Sé há 12,8 empregos por morador, enquanto em C. Tiradentes a equação se inverte, e muito, com 66 moradores por vaga.

Um dos personagens da matéria do Estado, funcionária de uma empresa de telemarketing, é um bom exemplo da concentração das vagas de trabalho no Centro. Uma empresa de telemarketing poderia muito bem estar em algum local mais periférico da cidade, onde também existe infraestrutura para a sua perfeita instalação. Tecnologicamente, é possível que diversas empresas não precisem mais necessariamente instalar-se no Centro ou em bolsões empresariais para realizarem suas atividades. No entanto, não é o que se tem visto.

A reportagem, de Lourival Sant´Anna, ainda aponta o descontrole sobre a iniciativa privada e sobre a especulação imobiliária como um dos responsáveis pela má distribuição entre habitação e oferta de emprego em São Paulo. A leitura vale muito a pena, por tratar o transporte paulistano como um problema que não encerra em si mesmo, mas como parte de uma política de desenvolvimento adotada pela cidade durante décadas. O bem-estar de muitos dá lugar, mais uma vez, ao progresso de alguns.

Texto relacionado: Nosso amigo e colega de jornalismo Daniel Médici publicou em seu blog, o Cadernos do automobilismo, um texto muito bom sobre os problemas enfrentados pela cidade de Detroit, nos Estados Unidos. Intitulado Detroit: a cidade, o carro, a corrida, o caos, fala da cidade que, de berço pulsante da indústria automobilística norte-americana, se tornou uma gigantesca mancha urbana vazia e decadente.

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