maio 2008


Conversa com Anderson Magalhães, vendedor de balas na parada Brigadeiro Faria Lima do corredor Campo Limpo-Rebouças-Centro.

Faz tempo que você vende balas aqui?

Não, faz uns 30 dias, eu vendia água naquele farol ali [aponta pro farol na Av. Rebouças em cruzamento com a Faria Lima].

E você tem outra profissão? Faz isso pra complementar renda como é?

Ah, eu monto móveis, mas a coisa tá enrolada, enquanto isso eu vendo bala aqui, tiro R$25 a 30 por dia. Já é um bom dinheirinho né rapaz, sabe como é que é.

Que horas você faz?

Olha cara, aqui eu faço dez, dez e meia até umas seis… aqui eu faço meu horário.

E por esse tempo que você permanece aqui, você tem notado alguma coisa diferente?

Diferente?

É algo que você queira destacar, que te chama atenção?

Oh rapaz, o que chama atenção aqui é mulher bonita. É 24 por 48…

É mulher de olhos azuis, verdes, cinzas, castanhos… é mulher de todo tipo e tamanho. Eh, mulher é coisa boa. Eu sou evangélico, mas gosto de mulher, só não pode é cobiçar.

E quanto as balas, você vende pra quem?

Aqui quem compra é gente que ta indo pro trabalho e chega com um bafo de cigarro e quer ir com um bom hálito trabalhar

Agradeço a atenção e as respostas do vendedor que não se incomoda em responder com boa vontade no meio de “Bala de eucalipto, bala de goma, menta, drops!”.

Só quem anda de ônibus sabe como é bom transitar rapidamente num corredor exclusivo, enquanto milhares de automóveis formam filas infindáveis e gastam horas para chegar onde quer que seja. É como um troféu, uma vitória do transporte coletivo, um alento a todos que sofrem com os ônibus superlotados: “vou apertado, mas, ao menos, chego primeiro”, é o pensamento que sempre me vem à mente.
 
Pena que isso nem sempre acontece. Essa semana, pude experimentar precisamente o contrário. Por volta das 19 horas, andando no “Praça da Sé” repleto de passageiros, em pé, tive o desgosto de ver o trânsito fluir tranqüilamente para os automóveis, enquanto ônibus se enfileiravam no corredor da Av. Rebouças e rodavam numa lentidão irritante. A cena se repete todos os dias nos horários de pico.
 
Geralmente, os carros enfrentam situação igual ou pior. Mas, naquele dia, a fluidez do trânsito fora do corredor chamou minha atenção. Numa situação ideal, todos os veículos – carros, ônibus, caminhões, motocicletas – deveriam conseguir rodar com facilidade. Entretanto, no atual estágio caótico do trânsito de São Paulo, há que se privilegiar o transporte coletivo.
 
A criação dos corredores de ônibus foi uma iniciativa nesse sentido. Porém, nem sempre eles têm o efeito desejado, qual seja, a agilidade dos ônibus. De acordo com Hugo Pietrantonio, professor do Departamento de Engenharia de Transportes da Escola Politécnica da USP, a funcionalidade dos corredores depende de como eles são projetos. Para explicar, ele compara o corredor da Rebouças com o da Nove de Julho:
 
“O corredor Nove de Julho tem pontos de parada com ultrapassagem, com um posicionamento mais adequado em termos de espaçamento e distância dos semáforos. Sempre operou melhor, desde a sua inauguração. O corredor Rebouças não tem ultrapassagem. Alguns pontos são muito próximos dos semáforos (os da Faria Lima são o exemplo claro). Alguns pontos tem uma demanda muito grande e, dada a falta e ultrapassagem, geram interferências prejudiciais na operação de embarque/desembarque (o do Eldorado é o exemplo gritante)”.
 
A reserva de um espaço para ultrapassagem exige o alargamento dos corredores, o que pode estrangular ainda mais o fluxo de automóveis. Em casos como esse, entra em jogo o que privilegiar – transporte coletivo ou individual? Em ano de eleições municipais, é bom ficar atento ao que os candidatos estão propondo para o transporte da capital paulista.
 

Clique no link abaixo para ver a íntegra da entrevista com o professor Hugo Pietrantonio 

ônibus Monika- Diesel, do Museu do Transporte Público

Pessoal, tem mais algumas fotos do Museu no Flickr do SP Ônibus!
Até a semana que vem vai ter mais foto do museu. E também fotos
e texto do bonde do Museu da Imigração.

Recado dado por Sidnei Fernandes, motorista da linha 701U – Jaçanã-Butantã USP há dez anos, e a dezessete no transporte coletivo urbano:

 

“Eu gostaria que a maioria dos passageiros tivesse interesse de procurar saber como que é a função do motorista. O quê que o motorista faz… a hora que ele levanta, a hora que ele sai, quanto tempo ele tem de almoço.

Chega numa firma qualquer aí, é uma hora, uma hora e meia de almoço.

Oh, meu amigo, eu tenho meia hora de almoço, se eu chegar cinco atrasado, eu tenho 25 minutos, qual firma que dá 25 minutos de almoço pra você?

Nenhuma.

E chega hora do almoço, nós põem almoço na ficha e tem que seguir de viajem de novo.

Daí chega lá no ponto o passageiro fala:

Ó, é o motorista que ta demorando.

Têm alguns que falam:

Ó, o cara tá enrolando lá, tá batendo papo.

Os passageiros ficam esperando aí, [no estacionamento de ônibus dentro da USP] e falam: ó, eles estão batendo papo e não querem sair com nós. É isso que eles pensam. Eu acho que eles deveriam pensar melhor, só isso.”

 

(mais…)

Muitos paulistanos foram surpreendidos na manhã de hoje com uma paralisação temporária de toda a frota de ônibus da capital. Entre as 11h e as 14h, os ônibus pararam de circular na cidade, prejudicando a população. Houve dificuldade também para utilizar as poucas lotações que circularam durante o dia, sempre com capacidade máxima de passageiros. “Fiquei mais de uma hora no ponto e depois decidi fazer o meu trajeto a pé, até conseguir entrar numa lotação”, comentou Luís Ferrara, que teve que chegar atrasado ao serviço.

Os motoristas e cobradores reivindicam estabelecimento de piso salarial, melhoria da cesta básica e fim da jornada flexível, com conseqüjente pagamento de horas-extras. Nesta sexta-feira, será realizada uma assembléia geral, para decidir se a categoria entrará ou não em greve a partir da próxima semana.

São Paulo possui a maior tarifa de ônibus entre as capitais brasileiras e todo mundo sabe disso. Ou, ao menos, deveria saber. O dado, de maio de 2007, está disponível no site São Paulo em movimento, da prefeitura da capital paulista. Em Curitiba, famosa por seu sistema de transportes coletivos, a passagem custa R$ 1,80. No Rio, os passageiros pagam R$ 2,00. As capitais que mais se aproximam de São Paulo, no quesito preço, são Campo Grande e Florianópolis, com tarifas de R$ 2,10.

 

Informações como essas podem ser encontradas também no site da SPTrans, que traz indicadores de frota, número de linhas ativas, quantidade de passageiros transportados, relatórios de receitas e despesas, entre outras coisas. Os números  remontam a 1983, sendo possível acompanhar sua evolução ao longo dos anos.

 

Por exemplo: somente em 2007, cerca de 2,7 bilhões de pessoas andaram de ônibus em São Paulo, uma média de aproximadamente 227 milhões por mês. O número de passageiros transportados por dia útil entre março de 2007 e o mesmo mês de 2008 foi de 9 milhões, em média. A frota atual de ônibus da capital tem uma idade média de 4 anos e 3 meses e soma 14.914 veículos, divididos em 978 linhas.

 

Como os ônibus são distribuídos nessas linhas, quais estão mais sobrecarregadas, aonde os ônibus chegam e não chegam, porque o transporte em São Paulo é mais caro que nas demais capitais brasileiras são perguntas que buscaremos responder neste blog. Para isso, contaremos com dados, relatos, experiências práticas, reportagens e – vale a pena ressaltar – com os seus comentários de usuário, que descobre na prática o que os números acima significam.

 

P.S.: Em setembro do ano passado, publiquei uma reportagem especial sobre o sistema de transportes em São Paulo na Revista Espaço Aberto da USP. Para quem quer saber um pouco mais sobre o assunto e descobrir o que alguns especialistas têm a dizer, fica minha modesta sugestão. O endereço é http://www.usp.br/espacoaberto/arquivo/2007/espaco83set/0capa.htm

A primeira máquina que vejo é de 1963. Mas não é nenhum ônibus, vagão, bonde ou coisa do tipo. A máquina em questão é de costura mesmo, uma Singer, utilizada nos bancos de ônibus da Companhia Municipal de Transportes Coletivos, a CMTC.

O Museu de Transporte Público “Gaetano Ferolla” é na verdade um museu dedicado à antiga CMTC, criada em 1946 para ser monopólio no transporte urbano da capital. O nome do museu é em homenagem ao seu criador, interessado em manter viva a história bondes e ônibus que rodaram pelas ruas da cidade.

O que se vê nas salas é basicamente o mobiliário e o maquinário da CMTC e de sua principal antecessora, a São Paulo Tramway Light and Power Company Limited.

Instrumentos de medição diversos, telefones, mesas e fotografias servem de aperitivo para aqueles que querem mesmo é ver os velhos transportes: bondes de tração animal, elétricos, trolebus e ônibus Diesel. Os carros, bem conservados, parecem mostrar uma São Paulo mais amigável em outras épocas. Grandes bancos laterais, de espuma, para quatro ou cinco pessoas, deixavam alguns daqueles carros com um ar de sala de visitas.

Junto aos avós e tios dos busões de hoje, alguns veículos de serviço da prefeitura em épocas passadas. Lado a lado, um velho ônibus e um Ford Landau.

O Landau perde em comprimento para o ônibus por coisa de um metro, ou um pouco a mais. Na largura também estão pau-a-pau (ambos não cabem nas faixas da Radial Leste perto do Centro da cidade), mas a diferença maior está no número de passageiros: Se não contarmos passageiros pendurados na porta de um ou vítimas de seqüestro no porta-malas de outro, o ônibus bate o Landau por uns 60 a 6. Dez vezes mais gente, pelo mesmo espaço na rua.

O Museu, infelizmente, não conta com novas peças a algum tempo. E parece não ter nem espaço para mais coisa. Também não há visitas monitoradas aos domingos, para dar informações adicionais às placas desatualizadas.

Da visita realizada neste 4 de maio, ficou a sensação de que a história do transporte público paulistano sofre da mesma falta de atenção que o sistema de transporte da cidade sempre sofreu.

Ainda assim vale a pena conhecer o Museu do Transporte Público. Ele fica na Av. Cruzeiro do Sul, 780 (é pertinho do metrô Armênia e não deve ser muito fácil estacionar por lá, então largue sua carroça em casa!). A entrada é gratuita. O telefone do Museu é (11)3315-8884. Conheça o site  do museu clicando aqui.

***Em breve serão postadas fotografias do Museu***   
 

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