Pior que perder horas dentro de um ônibus é não ter nada para fazer durante todo o itinerário. Deve ser por isso que, cada vez mais, se vê passageiros com toda sorte de passatempos. Hoje, há até ônibus com televisão, uma verdadeira salvação para quem esquece em casa seus livros, revistas, jornais ou mp3 (reflexos de uma sociedade individualista; um bate-papo com o companheiro de viagem não seria algo muito mais enriquecedor?!). Com o perdão pelo longo parêntese, voltemos aos passatempos: muito antes da BUS-TV, que será tema de um próximo post, um outro meio de comunicação fez a alegria dos desavisados: era uma vez o jornal Folha do Ônibus. 

O Folha do Ônibus foi criado, em dezembro de 1995, pelo jornalista Carlos Alberto Martins Neto, que via nos passageiros de ônibus um público em potencial. Neto inspirou-se na idéia dos alunos de uma faculdade de jornalismo de Bauru, que produziam um jornal e o distribuíam em uma linha de ônibus da cidade.

Inicialmente, o Folha do Ônibus possuía oito páginas e circulava em 100 ônibus da linha Centro/Campo-Limpo. O tablóide possuía tiragem de cinco mil exemplares e periodicidade quinzenal. A distribuição era feita gratuitamente através de caixinhas instaladas ao lado do cobrador. “A retirada era espontânea. Isso nos assegurava que quem pegasse o jornal iria querer ler”, explica Neto.
 
Quatro meses depois da fundação, o jornalista José Henrique Rangel se associou a Neto. A partir de então eles começaram a desenvolver uma infra-estrutura para a produção do jornal, que começava a dar lucro com publicidade. Em pouco tempo, o jornal já tinha 15 mil exemplares e circulava em 180 ônibus.

O sucesso do empreendimento levou os sócios a alçar vôos mais altos. “Queríamos fazer um jornal para cada região de São Paulo”, conta Neto. Assim, em setembro de 1996, o Folha do Ônibus passou a ter 16 páginas e tiragem de 80 mil exemplares, distribuídos igualmente entre as zonas norte, sul, leste e oeste da capital. As matérias de capa eram sempre as mesmas, mas as páginas internas diferiam entre as regiões. O conteúdo era composto principalmente por matérias sobre comportamento, entretenimento, jogos e passatempos.

Nessa época, a equipe do jornal possuía 19 vendedores de publicidade, 8 distribuidores, 2 jornalistas e 4 estagiários. O lucro líquido mensal com publicidade flutuava entre R$ 15 mil e R$ 20 mil por mês. O negócio começou a chamar a atenção. Foi quando uma empresa publicitária, pertencente a uma empresa de ônibus da capital, propôs uma parceria com a Folha do Ônibus. Com a sociedade, o jornal chegou aos 65 mil exemplares por região.

No entanto, o crescimento vertiginoso do Folha do Ônibus foi subitamente interrompido. No final de 1997, a SPTrans proibiu a distribuição do jornal dentro dos ônibus e terminais de capital. Apesar disso, esse não foi o fim do empreendimento. Em 1998, o tablóide começou a ser distribuído em ônibus de Osasco e outras cidades da grande São Paulo, onde circula até hoje. Neto permaneceu no negócio até 2001, quando o vendeu para um grupo que controla o Jornal do Trem.