Está praticamente oficializado no calendário da cidade: no começo de janeiro o prefeito Kassab aumenta o preço das passagens de ônibus, para garantir que empresários lucrem com a operação de um serviço público. Algumas pessoas, em geral estudantes, organizam uma passeata para uma semana depois, e a passeata, como muitas outras, sofre repressão policial.
Estive em uma dessas passeatas dessas no ano passado. Com gritos de protesto, umas poucas centenas de estudantes vão às ruas do Centro paulistano chamar a atenção para o aumento das passagens de ônibus. Como poucas manifestações feitas por estudantes, essas contra o aumento da passagem têm a simpatia dos comerciantes e transeuntes da cidade. Todos ali sofrem com o aumento das tarifas, pois são raros os que moram no Centro, mesmo que durante o dia milhões de pessoas deem vida à região. Em 2010, uma passeata anterior à qual eu fui, foi “dispersada” pela polícia.
Mas a questão é que a polícia, em um número preocupante de vezes, “desce a borracha”. Pessoalmente, já tive a desagradável experiência de precisar fugir da PM durante uma manifestação em frente à Assembleia Legislativa de São Paulo. Bombas de gás e de “efeito moral” sendo arremessadas em meio às pessoas e carros, cavalaria a postos, “prisões-relâmpago” etc. Do ano passado achei esse texto “Ato contra o aumento da passagem acaba com presos e feridos“. De 2011, além dos relatos de colegas de jornalismo da USP, a Folha de S. Paulo e o Blog Vi o Mundo, do jornalista Luiz Carlos Azenha, contam como se deu a perseguição aos manifestantes.
Liberdades
O Movimento Passe Livre (maiores explicações no link), defende a gratuidade de tarifas de transporte, bancada por impostos progressivos, para que todos possam ter acesso ao transporte público (afinal, ele não é público??). Dados publicados nesse site baseiam a afirmação de que 35% da população urbana brasileira não tem dinheiro para o transporte público regularmente. Isso condiciona a liberdade de ir e vir, pelo menos dentro de uma cidade, ao fato de a pessoa ter dinheiro – ou não – para a passagem. Que condições uma pessoa pode ter de procurar emprego ou estudar se para fazer isso precisa comprometer gastos com alimentação ou aluguel?
Outra liberdade que se costuma barrar por aqui é a de protestar, seja lá contra o que for. Aos olhos da sociedade, quem protesta, ao entrar em conflito com a polícia, acaba caindo em descrédito, sendo taxado de baderneiro (afinal, em vez de estar trabalhando, estava arranjando encrenca com a PM na cidade). A repressão inibe outras pessoas de participarem de um ato completamente legítimo e formado em maioria absoluta por pessoas que não estão lá para levarem bala de borracha e spray de pimenta, mas para reclamar melhorias junto ao poder público (ainda que não sejam atendidas).
Me pergunto como seriam essas passetas contra o aumento das passagens de ônibus se mais pessoas se sentissem seguras para participar. Numa cidade de números colossais, qualquer pocentagem mínima de cidadãos já encheria as ruas e pressionaria a prefeitura por mudanças. Mas seguimos apanhando, por enquanto…
setembro 25, 2011 at 5:40 pm
A questão nem é o lucro. Toda atividade deve render dividendos para quem o faz. A questão principal é a reserva de mercado “para os amigos” que existe na lei brasileira e que exclui a concorrência.
Prova disso é que muita gente ia de fretado e acabava gastando quase a mesma coisa que gastaria no transporte oferecido pela sptrans, mas tinha seu lugar cativo, ia sentado, muitas vezes no ar condicionado e trabalhando no laptop com segurança (já que eram grupos fechados onde todo mundo se conhecia).