A “continuação” da Linha 2 – Verde do Metrô, em fase de construção a partir da Vila Prudente e com destino a Cidade Tiradentes, no extremo Leste, parece uma grande incógnita quanto à real capacidade de ser um transporte rápido, seguro e com algum conforto. A demanda por Metrô em bairros do trajeto como São Mateus e Parque São Lucas, para ficar apenas nos mais próximos, receberá um sistema inédito na cidade: o “metrô-leve”.
Fica um pouco difícil especificar exatamente o que será o metrô-leve. Não pude precisar se será um veículo leve sobre pneus (VLP) ou sobre trilhos (VLT), embora esteja sendo chamado de “monotrilho” pela imprensa e pelo sindicato dos metroviários. Apesar de encontrar um fórum sobre o assunto que diferencie estes modais, para este texto, que não tem pretensões técnicas, utilizarei o termo monotrilho, em oposição ao que conhecemos como metrô. Posso, futuramente, tentar esclarecer tais diferenças em outro texto.
Quem assistiu a um famoso episódio dos Simpsons provavelmente não considera a idéia do monotrilho muito boa. No desenho, o “vendedor” do sistema consegue convencer a população (não há vereadores na Springfield de Homer) a instalar um sistema de transporte caro, de mau gosto urbanístico e sem demanda em uma cidadezinha do interior. As coisas pioram quando Marge descobre outras cidades que aderiram ao monotrilho e entraram em decadência. (clique em “Mais” para ler o final do texto”).
Na nossa Zona Leste, as coisas são um pouco diferentes. A extensão do Metrô atravessará bairros densamente povoados, carentes de transporte de massa decente (os terminais de ônibus não resolvem o problema da falta de uma ligação rápida com o Centro, numa área onde estatisticamente a oferta de empregos é baixa, obrigando longos deslocamentos para poder trabalhar). A opção pelo monotrilho baseia-se no seu custo relativamente mais baixo em relação ao sistema de metrô propriamente dito. Seja no custo das obras, dos equipamentos ou das desapropriações, o metrô-leve teria vantagens.
Pesa contra a obra, já em andamento na Avenida Luiz Ignácio de Anhaia Mello, a crítica de que o sistema não conseguiria transportar todos os passageiros. Seria necessária uma linha de metrô nos padrões das demais para desafogar a linha 3 – vermelha (praticamente paralela ao trajeto previsto para o monotrilho) e ainda servir de opção para permitir que algumas centenas de milhares de motoristas deixassem seus carros em casa, aliviando o trânsito em vias como a Radial Leste, Anhaia Mello e Salim Maluf, melhorando a qualidade do ar diminuindo o consumo de combustível na cidade.
Para Manuel Xavier Lemos Filho, diretor do Sindicato dos Metroviários de São Paulo, em texto publicado no próprio site do sindicato, a demanda estimada supera a lotação máxima do monotrilho de maior capacidade existente no mundo atualmente, rodando na China. Carregando um limite de 30 mil passageiros por hora por sentido (p/h/s) o monotrilho chinês não suportaria a demanda do percurso Cidade Tiradentes – São Mateus – São Lucas – Vila Prudente, estipulado em 48 mil p/h/s (seriam 18 mil passageiros a mais a cada hora).
Lemos Filho ainda cita os novos projetos, como a Linha 15 Branca, que também terá integração na estação Vila Prudente. Para o metroviário, ainda que a demanda seja atendida pelo monotrilho, o acesso ao metrô na Vila Prudente seria complicado, por se tratar de uma estação não projetada para tal e que já estaria praticamente no limite de sua capacidade quando do funcionamento da Linha 15.
Uma matéria da revista Exame também contesta a aplicação do sistema monotrilho às grandes demandas que, não apenas São Paulo, mas outras cidades brasileiras, também possuem. Das pessoas ouvidas, apenas o secretário estadual de transportes metropolitanos, José Luiz Portella, acredita na capacidade desse sistema: “Se eles [os técnicos do Metrô] disseram que é possível, eu assino embaixo”. Os demais entrevistados contrariam a escolha das cidades brasileiras, apressadas pela necessidade de transporte de massa pronto para a Copa do Mundo em 2014.
A reportagem ainda cita, além da capacidade limitada dos sistemas existentes, uma série de problemas técnicos (como em Las Vegas), além dos custos subestimados pelo projeto, que se mostraram muito maiores tanto na construção (em Seattle houve aumento de 700% no valor previsto) quanto na operação (Dubai sofre com a baixa demanda).
Infelizmente não consegui localizar a ata da audiência pública referente às obras da extensão da Linha 2 – verde, embora a tenha lido há um bom tempo. Lembro vagamente de representantes de empresas fabricantes de veículos para transporte público questionando a utilização da tecnologia escolhida pelo Metrô. Também não há quaisquer outras informações no site do Metrô, que retirou de seu site várias informações referentes às obras de expansão, certamente devido ao período eleitoral.
Outro ponto controverso é o impacto no ambiente urbano causado pela via elevada. Há quem compare o monotrilho ao Minhocão (Elevado Costa e Silva), causador de grande degradação na região central de São Paulo. Por outro lado, os defensores do projeto alegam que ele não agride a região do entorno, pelo contrário, a valoriza.
Existem outros aspectos que poderiam ser levantados aqui, mas ainda não esgotariam o tema. Parece evidente tratar-se de uma aposta do Metrô submeter o sistema de monotrilho a uma demanda ainda não compatível com nenhum sistema similar em todo o mundo. Em meio a tantas mudanças de planos, trajetos e nomes, paira a desconfiança e o “pé atrás” com uma obra com mais de 20 km de extensão e custo estimado em quase 4 bilhões de reais. O sucesso do monotrilho só poderá começar a ser medido com o primeiro trecho pronto. Espera-se que as obras não atrasem muito.
Links relacionados:
Matéria da revista Exame: http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/0981/noticias/a-conta-nao-fecha?page=1&slug_name=a-conta-nao-fecha
Site do Sindicato dos Metroviários, com vários textos contrários ao monotrilho e à PPP da Linha 4 – Amarela do Metrô: http://www.metroviarios.org.br
Fórum de discussão de transporte público (tópico sobre a extensão da Linha 2- Verde): http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=1002079&page=66
Artigos da Wikipédia (enciclopédia colaborativa) sobre temas ligados ao transporte:
http://pt.wikipedia.org/wiki/VLT
http://pt.wikipedia.org/wiki/Portal:Transporte
http://pt.wikipedia.org/wiki/Metr%C3%B4_de_S%C3%A3o_Paulo
Matéria do Portal G1: http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL1101747-5605,00-EXPRESSO+TIRADENTES+EM+SP+TERA+TRECHO+DE+METRO+LEVE.html
Longa matéria sobre modais de transporte: http://www.revistaoempreiteiro.com.br/index.php?page=materia.php&id=1539
Entrevistas com representantes de empresas fabricantes de transporte público: http://www.institutodeengenharia.org.br/site/noticia.php?id_sessao=4&id_noticia=2766
Página da prefeitura de São Paulo com dados e estatísticas da cidade: http://www.infocidade.prefeitura.sp.gov.br


fevereiro 22, 2011 at 8:34 pm
Com certeza a escolha foi feita pelo método mais caro e menos eficiente. O transporte público em São Paulo é uma vergonha e se esses políticos que dizem buscar melhorias para o transporte público utilizassem esses serviços, com certeza, no dia seguinte teriam alguma solução para o problema. Além de atrasarem em décadas a entrega de um metrô, o serviço ainda não atende toda a população. Tenho medo da Copa de 2014 – se continuar assim, São Paulo virará um caos!
fevereiro 22, 2011 at 9:30 pm
[...] This post was mentioned on Twitter by Katia, Leo Zanon. Leo Zanon said: Texto quentinho no meu blog Ônibus de São Paulo, sobre a expansão do Metrô como Monotrilho http://migre.me/3VDob A @Kkazedani recomenda… [...]
fevereiro 22, 2011 at 10:09 pm
Leo, não conhecia o blog e gostei bastante do texto. Vou passar a acompanhar. Abraço!
fevereiro 22, 2011 at 11:10 pm
O que me preocupa mais no monotrilho é: ele será capaz de suportar a demanda? As obras de metrô, trem e similares estão ficando prontas com muito atraso, e a população da periferia de SP não para de crescer. Será que a projeção de 48 mil passageiros por hora foi feita com base no censo atual ou na projeção para quando a linha for inaugurada? É preciso fazer em obras de grande porte, já pensando na expansão da demanda a longo prazo. Temos um monte de estações atrasadas num momento em que o governo já deveria pensar em alternativas para as linhas vermelha e azul, saturadas. E acredito que, com ou sem Copa, pode virar um caos. Se já é tenso na Zona Leste, quem dirá na Zona Sul, aonde o metrô mal chega…